quinta-feira, 6 de julho de 2017

Negligência

Bati à porta.
Quando abriu, sorri envergonhada e, ligeiramente, estiquei o braço, entregando  uma semente – que ele recebeu em sua mão esquerda.
Não me encarou e, ainda meio desconfiado, deu um passo para trás.
Sai e senti quando a porta fechou.
Trancou!
E senti, no fundo d’alma, quando, com desdém, meu pedaço de esperança foi atirado pela janela...

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quarta-feira, 24 de maio de 2017

O pulso ainda pulsa

"Se eu pudesse, arrancaria o 'coração' e deixaria ele em cima da mesa, lá, sozinho, pulando até morrer, até cansar de bater desnecessariamente por quem não deve... Mesmo sabendo que eu estaria correndo o risco de que acabasse sobrevivendo sem minha permissão... E voltasse a bater outras e novas vezes."



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terça-feira, 9 de maio de 2017

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O texto abaixo foi uma resposta que dei, há algum tempo, em um blog amigo. 
Ficou tão completo em si - e naquilo que não mudou - que resolvi postá-lo. Com algumas pequenas anotações e correções.


Nunca tive nenhuma segurança ao garantir minha inteireza, no decorrer de minha história. Sempre me vi retalhos.
Retalhos de outros que, por minha fragilidade e ingenuidade, foram se acumulando em pilhas de sentimentos confusos e desconexos...
Tenho esse defeito: quando me apaixono, corro riscos. E neles está minha capacidade (cega) de acreditar que o outro pode vir a querer o meu “bem” - gratuitamente. Mas nem sempre é assim. Aliás, nunca. No abrir as portas do coração ao alheio alguns enxergam uma possibilidade de eliminar as “sobras” daquilo que não foi aprendido em outras lições.
Nessa, vou ficando omissa a mim mesma e já não sei se sou quem deveria ser. Torno-me alguém sem somas ou novas interrogações... Alguém que já não consegue visualizar o futuro de um (novo) bem querer -  que me aceite em falhas e frangalhos, num espaço interno tão cheio de “negativos”.
E eu? “Menos um” ou até “menos de mim em mim”... 
Nada.


segunda-feira, 8 de maio de 2017

Utopia

Suas mãos nas minhas. Desejo simples, mas, igualmente, impossível.
Nem exigiria doces beijos, se um toque seu no meu rosto tivesse a cor dos meus sonhos.
Gracejo meu, tolice. Se me visse, hoje, nem “bom dia” me daria...
Você? Nem me saberia.

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sábado, 1 de abril de 2017

Figurante

O terceiro sinal toca e as cortinas se abrem.
O choro da criança interrompe os gritos angustiados da mãe que espera aflita pelo fim do sofrimento. Uma nova vida chegará às suas mãos e começará, então, um novo espetáculo. Um caminho repleto de segredos e sentimentos desordenados.
A criança é rodeada de conselhos e valores impostos. Desde cedo lhe é ensinado o certo e o errado. Seus olhos inquietos miram naqueles que falam sobre seu futuro, como se fosse uma receita de bolo: tudo milimetricamente planejado. Destino de pessoas de sucesso e reconhecimento: “o único caminho”, repetem incansavelmente.
A atriz percebe no seu íntimo que esse não é seu desejo real.
O script não mostra seu “par romântico” e o Diretor não se manifesta quando as dúvidas não cansam de perturbá-la. O desejo de ter alguém por um período da vida é inerente a todos, e não seria diferente com ela.
Em seus momentos de descanso, atrás das coxias, ela sente que não haverá esse alguém ao seu lado. Também não foi escalada para grandes papéis e deve se conformar com seu destino: coadjuvante de si mesma.
Durante a peça, por alguns instantes, ela diferencia quem usa máscara e quem não consegue se esconder de si mesmo. Uma forma infértil de passar o tempo e tentar minimizar as próprias mazelas.
Sua mocidade apresenta poucas possibilidades.
Algumas cenas são ensaiadas, mas aqueles que poderiam segurar suas mãos e ajudar a seguir em frente deixam-na de lado.
“Talvez eu não seja boa na arte da interpretação – da vida”, pensa. Insiste outras vezes e não entende o motivo de ter sido “jogada” ali.
Poucos colegas se propõem a interagir com a “criatura solitária”. Sim, assim mesmo: uma criatura solitária.
Em meio ao cotidiano, ela percebe que está fadada à solidão.
Os pés no chão e as realidades possíveis invadem seu ser e permanecem como seus companheiros.
Às vezes, é melhor ficar no camarim, decorando as novas cenas, fingindo não conhecer sua presença ignorável.
Ela não entende por que o Diretor insiste em mantê-la no espetáculo, se sua atuação é totalmente dispensável.
O coração, cansado de relacionamentos fracassados, não consegue enganar aquele ser humano que o carrega. Ela sente-se enganada e, ao mesmo tempo, resignada. “Faz parte do processo”, tenta se convencer.
E segue com seu papel simples e imutável.
A procura por alguém que possa ajuda-la a sanar a carência humana existente em um só personagem não permite culpa-Lo, pois não há justificativas para sua falta de bons atributos.
Não é bela, não é inteligente e um imenso vazio invade suas entranhas. Aos poucos, mas constante.
Vai permanecendo pelos cantos sempre que a falta de qualidades insiste em tirá-la do palco em que está inserida (por puro engano, tem certeza!).
Uma sensação de desconforto emocional toma conta, mais uma vez. Sabe que não deveria estar ali e não sente que possa, um dia, ser seu lugar.
Vergonhosamente, vai ao camarim para tentar se camuflar, pois entende que é preciso agir, mesmo sendo parte do elenco mudo.
Sabe que tem que continuar, apesar do papel de figurante apagada diante de tantas outras atuações explosivas, convincentes e cheias de vitalidade.
Não se encaixa naquele palco. Mas os atos prosseguem...
Mais uma vez pergunta ao Diretor se não há mudanças em sua trajetória. Chega a esbravejar com Ele! Mas a Voz nada diz e ela segue muda em sua história como figurante – destino certo daqueles que não possuem o carisma e o poder de sedução necessários para atingir o sucesso particular.
Não sabe como será o último ato. Apesar das frustrações, não tem pressa de saber. A luta por melhores dias continua.
Sabe que não merece esse papel; por que mereceria outro mais interessante?
Nesse momento esquece as poucas falas. Mas não para e não há tempo (ou possibilidades) para voltar ao início. A correção faz-se necessária a partir do erro executado. Pede desculpas ao público, que olha com indiferença, e segue em frente.
Continua a cena: um monólogo entediante.
Poucos têm paciência para assisti-lo e quem se atreve a fazê-lo, dorme nas cadeiras acolchoadas da vida.
Parou de questionar o Diretor.
No fundo, tem a certeza que as luzes continuam acesas e as cortinas insistem em ficar levantadas. 
Infelizmente, o show tem que continuar...


segunda-feira, 27 de março de 2017

Ding Dong

Chegou na minha vida sem pedir permissão.
Que fique claro: não autorizei a entrada!
Porém, como não bloqueei passagem, tomou lugar.
Veio (quase) invadindo os espaços, de mansinho.
Sentou-se em um lugar – onde se sentiu confortável
Para esbanjar sua autoconfiança
Diante do meu olhar perdido.
Não esboçou sentimentos ou sentidos.
Ficou.
Andando pelos cômodos tentei ignorar,
Passando espanador onde não havia o que limpar.
Está.
Mas o que eu queria mesmo era sair desse lugar.
(Era?)
E me libertar, sem olhar pra trás.
Como se nunca tivesse deixado a porta aberta – vacilo!
Como se nunca tivesse estado por lá.




domingo, 19 de março de 2017

Em tempo, há tempo... – Círculo vicioso

Texto escrito em 2010. Não me recordo ao certo a quem ou o que eu me referia – mas tenho ideia. Hoje, o “quem” certamente é (ou seria) outro. Ou mesmo não ser(ia) ninguém. O que ressalto é o martelar insistente de certos sentimentos (indevidos). Fiz pequenos ajustes. Nada mais.


Por que ainda insisto?
Eu, que sempre desisto.
Mas transgrido.
Meus limites são extensos,
Não tenho controle.
Sorte, mantenho em mim,
Mas são tensos tais pensamentos.
Não quero!
Quero minha liberdade.
Liberdade d’alma.
Limpar a mente.
Mas,
Faz-me falta.
Quando não recebo a resposta,
Mesmo intransigente.
Estúpido... você!
Insensata... eu!
Mantra suave para não enlouquecer.
Apagar, esquecer.
Mas,
Como saber?
Escrevo novamente...
E, mais uma vez, arrependo-me.
Dúvidas,
Ou desculpas?
Certamente, culpas!
O que faço?
Peço a Deus que me perdoe.
Não mereço Seu perdão,
Afinal, mais uma vez!
Não aprendo.
Sou humana,
Sou assim.
No fim, quero apenas o fim
De tudo isso,
Dessa dúvida sem fim...


quarta-feira, 15 de março de 2017

Recorte

Quase distraída, passou a mão em alguns papéis e numa caixa de lápis coloridos. 
Jogou tudo na mesa e, em uma folha, rabiscou um “coração”. Começou com um contorno e finalizou preenchendo-o na cor vermelha, quase rasgando: o peito e a alma. Ao terminar, ainda lembrou-se do tempo de criança, quando os desenhos eram anseios para projetos futuros. Agora, adulta, apenas um meio de esquecer.
Levantou e pegou a tesoura, antes largada em cima de um móvel. 
Furou o desenho, arrancou a parte feita há pouco e dilacerou-a com raiva. 
Fixou os olhos na parte preservada... E desejou que também assim fosse dentro dela...

segunda-feira, 13 de março de 2017

Ao portador do ato e da fala...

Texto feito em homenagem a alguém que admiro. Na intenção de não expor a pessoa em questão, preferi fazer uma pequena “adaptação” na escrita sem citar nomes.


“... porque admirar alguém que atua ou dubla é mais ou menos isso: autorizar que o talento, através das artes, nos faça morada, seja através das várias histórias presentes em cada um dos personagens interpretados ou mesmo pelos trejeitos escondidos através da fala.
E um bom ator/dublador nos sacode, atiça novas reações, mexe com corações, resgata memórias quase esquecidas!
Admirar (nesse contexto) é permitir que o artista, através do seu olhar e destrezas (frente ao público) ou sua fala (escondida em outros rostos), possa nos preencher vazios ou transbordar sentimentos já existentes.”