quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Na estica

Estamos cada dia mais “gourmetizados”* na nossa relação com o aspecto externo. 
O mundo nos atropela e, quando não estamos de acordo com suas expectativas, somos excluídos e esquecidos.
Forçam-nos a comer menos e colocam em nossas cabeças que o importante é que fiquemos sarados, gostosos e turbinados, mas não pela saúde em si, mas pela necessidade de parecermos perfeitamente belos para uma mídia de celulares em todas as esquinas e a obrigação da fama “imediata” nos meios de comunicação.
Estamos deixando de mostrar quem realmente somos. Nosso brilho pessoal está dando lugar ao brilho superficial da graça objetal.
Perdemos o direito de evidenciar fraquezas, expor a raiva de dias ruins (pelos mais diferentes motivos) ou de sermos incapazes de controlar certas situações, mesmo que momentaneamente, pelo risco de evidenciar tais eventos com uma maquiagem borrada e mal cuidada. Ah, e a maquiagem... Essa sempre impecável em todos os ambientes! Na festa, trabalho, casa dos amigos e, inclusive, no momento de troca de máscaras de felicidade, quando chegamos naquele cantinho de nossa intimidade, ao tirarmos os sapatos do encanto pleno.
Nossas vestimentas estão “evoluindo” rápido demais, deixando para trás o conforto e evidenciando a superficialidade das marcas e nomes de grande sucesso.
Desleixo é coisa de gente desprezível! Afinal, elegância não é sinal de postura (nata ou adquirida), onde o bom senso segue de mãos dadas com um (bom) gosto peculiar. O dinheiro impera no uso da boa aparência.
Não há espaço para os deslizes que nos fazem humanos – ou enganados – em algumas (e até muitas!) de nossas escolhas.
Atrás de cada disfarce, os olhos estão fundos e escuros, por conta do lamento oculto. E o espírito cada dia mais órfão dos verdadeiros significados que deveriam nos preencher.

* Gourmetizar significa “se utilizar de uma embalagem de estética refinada, evidenciando certo exagero na aparência, para (no fim) oferecer um produto simples, ruim ou sem graça”.


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Ermo

Há dias que a vida faz-se presente tal qual um tapa na cara. Ou um grande soco no estômago. São dias de compreensão de uma verdade que jorra para dentro do sangue, sem meios termos. O solavanco surge na forma de frases e gestos de quem mais precisamos naqueles instantes. Quem era para ser “ajuda”, torna-se “tortura”. E pior: somos nós que, aos poucos, por querermos bem, por respeitarmos o outro, autorizamos a entrada em nosso território e, assim, acabam fazendo pouco caso do que temos de (aparentemente) importante.
O desgosto, que já se fazia presente, começa a ter a aparência de apenas um devaneio, pois a angústia pré-existente agiganta-se no momento do empurrão dado para dentro da lama.
Hoje, estou profundamente entristecida. Por ter fé em algumas pessoas e nas circunstâncias que surgem no caminho. Percebo que, nos poucos momentos que tento abrir as portas que dão acesso aos meus destroços – como um pedido de socorro – mais lixos são arremessados, mesmo que eu tente me esquivar!
Não sinto mais sabor. Quase não enxergo mais cores. E quando sinto que esse ser chamado solidão se aproxima cada vez mais, sentando-se ao meu lado, prevejo a poça suja e embaçada à minha frente, em tons de cinza e nublado.



terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Vácuo

Em alguns de meus sonhos – os mais profundos – desejo o vazio profundo. Sem lampejos, argumentos, esperanças ou ruídos.
Anseio o nada que vive em mim e que, insistentemente, fala silenciosamente sobre minha incrível capacidade de “não ser”.
Sei: sou nada, sou ninguém. E queria apagar o que – em mim – ainda resiste.


domingo, 29 de janeiro de 2017

Em tempo, há tempo... - Pequenez

Raiva,
Repulsa,
Asco,
Mágoa,
Rancor,
Aversão,
Ira,
Irritação,
Indignação...
Por que toda essa palhaçada?
Não tem graça!
Explodam,
Triturem,
Esmaguem,
Acabem,
Esqueçam-me!
Natureza adâmica,
Voraz,
Feroz...
Liquida sonhos,
Imagens,
Sanidade...
Carne fraca,
Feia,
Suja,
Velha,
Inútil,
Limitada.
Mente pobre,
Triste,
Incapaz,
Incompetente,
Irracional.
Parem com esse barulho! 

Quero silêncio,
Agora,
Sempre,
Pra sempre!
Ao menos parem o mundo,
Quero descer!
Descer de mim,
De tudo,
De todos.
Silêncio!
Preciso dormir...

(Texto de dezembro de 2009, mas mais atual que nunca)

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sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Nulo(a)

“E quando menos se espera, o pensamento pesa insistente nos motivos errados. Quero, mas tenho ojeriza disso. 
A roda gigante sobe e desce sem razões, sem explicações. Tenho vontade de me jogar, tendo em vista que o movimento é rápido demais e não tenho tempo para digerir o que vejo e ouço. 
Sentimentos desconexos e sem verdade aparente. Não compreendo e por isso me autoflagelo. Tento rasgar o coração (que já se encontrava ferido) em sintomas tão estúpidos como noutras vezes. 
Se pudesse, apagaria todas e quaisquer percepções. Mas tenho que enfrenta-las, mesmo sabendo que no final não restará nem a lição aprendida.”

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segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Em tempo, há tempo... - Enlace

Texto escrito em 2009. Na ocasião, precisava de um abraço. Sem maldades, sem preconceitos, sem análises. Só o acalento que um “envolver” pode oferecer. É um dos meus escritos que mais gosto. E repito, em palavras e intenção.

Enlace

Preciso de um abraço...
Abraço tenro, abraço terno.
Abraço amigo, abraço antigo,
mesmo quando o tempo nega essa verdade.
Abraço novo, novidade para a alma.
Abraço perfeito, aceito, conjunto.
Enlace profundo,
sem quaisquer vestígios de “pré-conceitos”.
Abraço seguro, contato maduro.
Segurança no agir e transmitir.
Que não existam barreiras ou ladeiras.
Sem esquivos...
E que demonstre pureza em sua intensidade...
Preciso do envolvimento que essa comunicação possa permitir.
Sem medos, receios ou regras a cumprir.
Nada de receitas pré formuladas...
Respeito e anseio entrelaçados à vontade de chegar mais perto.
Sem os nós da indecisão,
onde habita a imperfeição (humana)
que esconde o Cristo que há em si.
Preciso muito de um abraço, de um laço...
Sincero, completo...
Sem maldades,
quero-o em verdade.
Permita-me abraçar-te!...




domingo, 22 de janeiro de 2017

Impasse

“Muitos são os que querem falar, porém poucos têm a coragem do enfrentamento por conta de medos estabelecidos na triste ilusão de perda da migalha de amor a se receber...”


sábado, 21 de janeiro de 2017

Pesadelo

Questões feitas em momentos de extrema depressão e desesperança. 
Nem sempre sou assim. Nem sempre sou assado. Nada permanece.
As perguntas, vêm e vão. E nem sempre possuem sentido de ser.

“E quando nossa própria mente, abraçada com os demônios da crueldade, insiste em nos derrubar e dizer o quanto somos nulos diante da vida, do mundo e de todos? E quando percebemos que não possuímos nada para oferecer a nós mesmos e apenas nos afundamos na lama das nossas incapacidades? Como colocar a mão para fora e pedir ajuda se o que nos puxa é altamente feroz e destruidor? Como emergir se o que temos acima é o fundo?”


quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Tapa

Eu precisava muito ler isso. O dia me mostrou como sou tola em acreditar em certas pessoas. Só porque andam disfarçadas de "boas ovelhas", não quer dizer que sejam. A gente se surpreende e acaba se blindando. Estou muito decepcionada comigo por acreditar e ter fé em pessoas que sequer mereceriam um "bom dia". Mas alguém colocou isso na minha frente para eu ter um pouco de paciência e acreditar na força que vem do Alto e, apesar de não ver, ter em que me agarrar. Não verifiquei se o trecho abaixo corresponde ao bíblico, como está informado. Porém, independente, a mensagem foi forte e me ajudou. Aos que leem, perdoe-me o desabafo.

"Saiba que o nosso Deus é um Deus de justiça. Ele conhece cada pessoa que te magoou, enganou, abandonou, traiu, roubou, machucou. Ninguém mais poderia ter visto o que lhe fizeram, mas Ele viu. E se você se recusar a ficar chateado, aborrecido, Ele acertará as contas em seu lugar. Ele pegará o que foi feito para o seu mal e usará para a sua vantagem, a seu favor, em seu benefício." (Isaías 61:7)

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Tela


Sou essa montanha russa de sensações em cores.
Tem dias que sou cinza em chuva negra;
noutros, douro tal qual brilho de sol.
Às vezes, vermelho em raiva que queima;
noutras, a calmaria azulada em toque.
Já cheguei a cintilar em prata e ouro.
Mas prevaleceu o fosco das escuridões nebulosas.
Na verdade, ainda não descobri quem sou.
Só tento não cair, constantemente 
– e definitivamente -,
no desmanche da aquarela que escorre sem o verde da esperança.